Doenças Inflamatórias Intestinais

Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa

O que são as Doenças Inflamatórias Intestinais?

A Doença de Crohn (DC) e a Retocolite Ulcerativa (RCU) fazem parte do grupo das Doenças Inflamatórias Intestinais (DII). São doenças crônicas, caracterizadas por uma inflamação persistente do sistema digestivo.

Podem surgir em qualquer idade, mas são mais frequentemente diagnosticadas em adolescentes e adultos jovens. Estima-se que milhões de pessoas convivam com DII em todo o mundo (1). No Brasil, sua ocorrência tem aumentado, especialmente nas regiões Sul e Sudeste (2).

As DII não apresentam uma causa única. Acredita-se que resultem da interação entre predisposição genética, microbiota intestinal, fatores ambientais e uma resposta inadequada do sistema imunológico.

Qual é a diferença entre Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa?

A Doença de Crohn pode atingir qualquer parte do tubo digestivo, da boca ao ânus. As regiões mais frequentemente comprometidas são o final do intestino delgado, chamado íleo, e o início do intestino grosso. A inflamação pode atravessar toda a espessura da parede intestinal.

A Retocolite Ulcerativa compromete o reto e o cólon, também chamado intestino grosso. A inflamação geralmente começa no reto e pode se estender de maneira contínua por diferentes segmentos do cólon, permanecendo limitada às camadas mais superficiais da parede intestinal.

Principais sintomas

Os sintomas variam conforme a localização, a extensão e a intensidade da inflamação. Os mais frequentes são:

  • Diarreia, que pode apresentar sangue ou muco;
  • Urgência para evacuar;
  • Dor abdominal;
  • Perda de peso ou de apetite;
  • Febre e cansaço;

As DII também podem causar manifestações fora do intestino, como aftas, dores ou inflamações articulares e alterações na pele, nos olhos e nas vias biliares.

Alguns pacientes apresentam períodos prolongados sem sintomas. Mesmo nesses casos, o acompanhamento é importante para confirmar que a inflamação intestinal também está controlada.

Possíveis complicações

Quando a inflamação não é adequadamente tratada, podem ocorrer complicações.

Na Doença de Crohn, as principais são estreitamentos do intestino, chamados estenoses, abscessos e fístulas, inclusive na região perianal.

Na Retocolite Ulcerativa, crises intensas podem causar anemia, necessidade de internação e, em situações graves, indicação de cirurgia. A inflamação extensa e mantida durante muitos anos também aumenta o risco de câncer colorretal, motivo pelo qual podem ser recomendadas colonoscopias periódicas de vigilância.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é estabelecido pela combinação dos sintomas, avaliação clínica, exames laboratoriais, métodos endoscópicos, exames de imagem e análise das biópsias.

Exames de sangue e fezes

Os exames laboratoriais ajudam a identificar anemia, alterações nutricionais, infecções e sinais de inflamação. Entre os marcadores mais utilizados estão a Proteína C reativa (PCR), a Velocidade de hemossedimentação (VHS) e a Calprotectina fecal.

A calprotectina fecal é particularmente útil para estimar a atividade inflamatória intestinal e acompanhar a resposta ao tratamento.

Endoscopia e colonoscopia

A colonoscopia com biópsias é fundamental para o diagnóstico e permite avaliar a localização, a extensão e a intensidade da inflamação.

Importante lembrar que os exames endoscópicos também são utilizados durante o acompanhamento para verificar a resposta ao tratamento e a cicatrização da mucosa intestinal.

Exames de imagem

A enterografia por ressonância magnética, a tomografia computadorizada e a ecografia intestinal auxiliam na avaliação intestinal e na identificação de estenoses, abscessos e fístulas.

Cápsula endoscópica

A cápsula endoscópica é um exame complementar considerado não invasivo que pode nos dar imagens de toda a extensão do intestino Delgado.

Tratamento

Embora sejam doenças crônicas, atualmente existem diferentes opções terapêuticas capazes de controlar os sintomas, cicatrizar o intestino e reduzir o risco de complicações.

O tratamento é individualizado. A escolha considera o tipo de DII, sua localização e gravidade, doenças associadas, tratamentos anteriores, idade e preferências do paciente (3,4).

Aminossalicilatos

A mesalazina é utilizada no tratamento da Retocolite Ulcerativa leve a moderada. Pode ser administrada por via oral ou retal, na forma de supositórios ou enemas, de acordo com a extensão da doença.

Seu benefício na Doença de Crohn é limitado e restrito a situações selecionadas.

Corticoides

Prednisona, prednisolona, budesonida e corticoides endovenosos podem ser utilizados para controlar uma crise e induzir a remissão.

Essas medicações não devem ser utilizadas como tratamento de manutenção. O uso prolongado aumenta o risco de infecções, osteoporose, diabetes, hipertensão, catarata e outras complicações.

Imunomoduladores

Azatioprina e metotrexato podem ser empregados em situações selecionadas, inclusive em associação com determinados medicamentos biológicos.

Como apresentam início de ação mais lento e podem provocar efeitos adversos, exigem acompanhamento clínico e exames laboratoriais periódicos.

Antibióticos

Os antibióticos não são utilizados rotineiramente para controlar a inflamação intestinal. Podem ser indicados quando existem infecções, abscessos ou algumas complicações perianais.

Terapias avançadas

As terapias avançadas incluem medicamentos biológicos e pequenas moléculas administradas por via oral.

São utilizadas nas formas moderadas a graves, na doença fistulizante, na dependência de corticoides ou quando existem fatores associados a maior risco de complicações. Em determinados pacientes, podem ser indicadas precocemente, sem a necessidade de passar por todas as terapias convencionais.

Além de melhorar os sintomas, essas terapias podem controlar a inflamação, favorecer a cicatrização intestinal e diminuir a necessidade de internações e cirurgias.

Medicamentos anti-TNF

Os medicamentos anti-TNF bloqueiam o fator de necrose tumoral, uma proteína envolvida no processo inflamatório:

  • Infliximabe: Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa;
  • Adalimumabe: Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa;
  • Golimumabe: Retocolite Ulcerativa.

Anti-integrina

O Vedolizumabe atua de maneira seletiva, reduzindo o tráfego de células inflamatórias para o intestino. É aprovado para o tratamento da Doença de Crohn e da Retocolite Ulcerativa.

Inibidor das interleucinas 12 e 23

O Ustequinumabe bloqueia uma subunidade compartilhada pelas interleucinas 12 e 23. Pode ser utilizado tanto na Doença de Crohn quanto na Retocolite Ulcerativa.

Inibidores seletivos da interleucina 23

Novas terapias biológicas atuam bloqueando seletivamente a subunidade p19 da interleucina 23:

  • Risanquizumabe: aprovado no Brasil para Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa moderada a grave (5);
  • Guselcumabe: aprovado para Retocolite Ulcerativa e Doença de Crohn moderadas a graves (6,8);
  • Miriquizumabe: aprovado para Retocolite Ulcerativa moderada a grave (7).

Inibidores de JAK

São pequenas moléculas administradas por via oral:

  • Tofacitinibe: indicado para Retocolite Ulcerativa;
  • Upadacitinibe: indicado para Retocolite Ulcerativa e Doença de Crohn (9).

Observação: A aprovação regulatória de um medicamento não significa, necessariamente, sua disponibilidade imediata nos planos de saúde ou no Sistema Único de Saúde (SUS). O acesso pode variar conforme a indicação, a cobertura assistencial e os critérios estabelecidos para seu fornecimento..

Segurança e acompanhamento

As terapias avançadas apresentam eficácia e segurança bem estabelecidas quando corretamente indicadas e acompanhadas.

Antes de iniciar o tratamento, podem ser solicitados exames para tuberculose, hepatites e outras infecções. A situação vacinal também deve ser revisada e atualizada.

Durante o acompanhamento, é importante comunicar à equipe médica sintomas como febre persistente, infecções, falta de ar, lesões de pele ou qualquer alteração diferente do habitual.

Os riscos, os exames de monitorização e os cuidados necessários variam conforme o medicamento e as características de cada paciente.

Objetivos do tratamento

O tratamento moderno busca resultados que vão além da melhora da diarreia e da dor abdominal. Os principais objetivos são:

  • Controlar os sintomas;
  • Normalizar os marcadores inflamatórios;
  • Cicatrizar a mucosa intestinal;
  • Evitar o uso prolongado de corticoides;
  • Prevenir hospitalizações, cirurgias e complicações;
  • Recuperar a qualidade de vida.

O objetivo é permitir que o paciente retome sua rotina: trabalhar, estudar, praticar atividades físicas, viajar e conviver com mais segurança e liberdade.

Tire suas dúvidas com nossa equipe médica e de enfermagem.

Referências bibliográficas

  1. GBD 2017 Inflammatory Bowel Disease Collaborators. The global, regional, and national burden of inflammatory bowel disease in 195 countries and territories, 1990–2017: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2017. Lancet Gastroenterol Hepatol. 2020;5(1):17-30.
  2. Quaresma AB, Damião AOMC, Coy CSR, et al. Temporal trends in the epidemiology of inflammatory bowel diseases in the public healthcare system in Brazil: a large population-based study. Lancet Reg Health Am. 2022;13:100298.
  3. Imbrizi M, Baima JP, Azevedo MFC, et al. Second Brazilian consensus on the management of Crohn’s disease in adults: a consensus of the Brazilian Organization for Crohn’s Disease and Colitis (GEDIIB). Arq Gastroenterol. 2022;59(Suppl 1):20-50. doi:10.1590/S0004-2803.2022005S1-02.
  4. Baima JP, Imbrizi M, Andrade AR, et al. Second Brazilian consensus on the management of ulcerative colitis in adults: a consensus of the Brazilian Organization for Crohn’s Disease and Colitis (GEDIIB). Arq Gastroenterol. 2022;59(Suppl 1):51-84.
  5. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. Skyrizi® (risanquizumabe): nova indicação para Doença de Crohn. Publicação no Diário Oficial da União em 21 nov. 2022. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/skyrizi-risanquizumabe
  6. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. Tremfya® (guselcumabe): nova indicação para Retocolite Ulcerativa. Publicação no Diário Oficial da União em 5 nov. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/tremfya-guselcumabe-nova-indicacao-1
  7. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. Omvoh® (miriquizumabe): registro para Retocolite Ulcerativa. Publicação no Diário Oficial da União em 2 dez. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/omvoh-miriquizumabe-novo-registro
  8. Agência Nacional de Vigilância Sanitária – Anvisa. Tremfya® (guselcumabe): nova indicação para Doença de Crohn. Publicação no Diário Oficial da União em 24 mar. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/tremfya-guselcumabe-nova-indicacao-2
  9. AbbVie Farmacêutica Ltda. Rinvoq® (upadacitinibe): bula aprovada pela Anvisa, incluindo indicações para Retocolite Ulcerativa e Doença de Crohn. Disponível em: https://www.abbvie.com.br/content/dam/abbvie-com2/br/documents/Paciente_ANVISA_RINVOQAD.pdf

Centro de Infusão de Medicamentos Especiais

A Endoclin conta com uma equipe multidisciplinar, composta por médicos, enfermeira, técnicas de enfermagem com treinamento para a infusão de medicamentos Biológicos. Nosso Centro de Infusão possui ambiente diferenciado, amplo com toda a estrutura necessária para a sua segurança e conforto na aplicação destes medicamentos especiais.